2017-10-07

 

Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,

basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,

um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação

de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.

Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.

Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos

de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,

Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,

de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.

Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,

a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,

ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.

Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,

errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,

escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade

e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.

W.H. Auden, O Massacre dos Inocentes, Assírio & Alvim.

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Palavras não envelhecem.
Algumas procriam.

*

É necessário ser artesão da simplicidade. Nas manhãs claras, cada recanto, cada feixe de luz, um ruído nas escadas, a água a correr, os frutos sobre a mesa, retêm em si uma afinação ou uma espécie de perfeição. Tudo que no mundo é disperso e equívoco, se perde no poema. Simplicidade não é, todavia, facilidade.

*

Nem sempre se quer o que se tem.
Nem sempre se tem o que se quer.
É mal ou bem?

*

É Primavera,
ela flutua, a face pálida
enchendo o rio.
Ninguém te salva.
Ninguém fala mais
de tristeza, dor ou loucura.
Tempos modernos, Ofélia.

Nunca mais regressar. Ficar a hora da partida suspensa. Cada vez se torna mais difícil ver passar os eléctricos. Turistas em todo o lado, barulho, gente a correr o dia inteiro. O Outono chega lentamente, o sol ilumina a página. O Carlos está na caixa registadora todos os dias, é casado, tem filhos, fecha a loja às 21h00. Sorri sempre. Nunca falei muito com ele, falo pouco, o K. é que fala sempre com toda a gente. Eu não. Como bem dizia minha irmã “és um bicho do buraco”, sim. É para mim insuportável esta confusão de gente em todo o lado. Amanhã, por exemplo, enche-se o bairro de carros, até ao sábado há trânsito. Tem sido infernal sair ao sábado por causa das campanhas eleitorais. No mercado, o Sr. António não estava na banca, andava por lá gente de bandeira na mão, os jornalistas a obstruir a passagem. Dei a volta com o carrinho de bebé e o Sr. António estava a beber cerveja. — Eu vi-a, mas tive que “fugir” das câmeras, já viu o que ali vai? — Saí do mercado com alfaces, feijão verde, cenouras, nabos, espinafres e dei de caras com o poeta. Taciturno, como sempre. Bem vestido. Pediu-me para ver a menina. — O que tens lido ultimamente? — Muito pouco, na verdade. Já reparaste como as árvores se transformam e caem as primeiras folhas? — Disse-lhe adeus, não me apetecia falar de livros, muito menos dos seus poemas. Os poetas são vaidosos. Nunca lhe disse o que penso dos seus versos, esquivo-me sempre a essa questão. Além disso, apenas sinto quando um poema é bom, não sei tecer comentários. É como com a música, a pintura… Como o amor. O que mais me entusiasma agora é o Outono. Cores estupendas nas paisagens do Norte.

No corredor do hospital, Susana andava com dificuldade, a barriga enorme, pernas inchadas. Olhou-me e disse-me: — Queres dar à luz por mim? É fácil, fazes força várias vezes, prendes a respiração e aguentas. No fim, choras de emoção. — Não, já tenho uma cicatriz, levantei a camisa, um penso, arranquei-o e mostrei os agrafos. Também foi fácil, não senti nada. A meio da noite, vieram as enfermeiras ao quarto, levantaram-me da cama, mandaram-me ir ao WC para urinar. Lavaram-me com água morna, o meu corpo tremia e colocaram-me outro penso, deitaram-me novamente, não adormeci. A minha filha chorou a noite toda, como se não quisesse estar aqui. — Pela manhã, as mulheres andavam pelos corredores. Havia também Fernanda. Tinha a cara iluminada, não sorria. Não podia sentar-se, agarrava-se ao corrimão. — As enfermeiras mandaram andar muito para a recuperação ser mais fácil. — Recuperar. Não lhe disse nada, continuei pelo corredor. Através da vidraça, o sol era forte, vi passar o comboio como as dores desses dias. A minha filha continuou a chorar, como se não quisesse estar neste mundo.

POEMA

Para o banquete com talheres de prata
chegam os poetas com as musas ao colo
elas todas nuas
eles de gravata

servem-se as lagostas
ao som do piano
e depois a carne
carne de licorne desce de aeroplano

tudo com muitos vinhos
de vários sabores
por copos infindos
como são os amores

e após o banquete
entre aves canoras
os poetas e as musas
saem para o espaço
em camas voadoras

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Antígona.

 

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As crianças, na escola, falam alto, arrastam mochilas pelo chão. Percorro os corredores, vejo as salas de aula, volto para casa. É como entrar e sair de Setembro.

As árvores são o meu maior fascínio, nunca se cansam do mesmo lugar. E nós, insatisfeitos e inquietos. Muitas vezes, as raízes rompem o alcatrão e ficam totalmente expostas. A força das árvores é inigualável. Um verme, um homem jamais conseguiria tal feito. Na cidade, as árvores são o maior refúgio que encontro. Os castanheiros e pinheiros perto do pavilhão Carlos Lopes fizeram o meu dia crescer silencioso, a noite não foi tão densa e triste.

 

«Os livros de Naso estavam dispostos, nas montras das livrarias, em pirâmides e em mosaicos encimados por cartazes com o seu retrato, e até as prostitutas, nos bordéis da capital, iam buscar os pseudónimos às suas poesias eróticas impressas em grandes tiragens. Mesmo as cartas de amor das pessoas de bem não passavam, muitas vezes, de cópias das suas maravilhosas elegias.

 

 

Mas o nome de Naso acabava por vir também à baila quando se falava de escândalos, de festas ao ar livre, banquetes, dos luxos da moda ou das aventuras do poder… Não havia dúvida, Naso era famoso. Mas um poeta famoso, afinal, o que era? A verdade é que Naso só precisava de se ir sentar com os trabalhadores braçais numa taberna dos arredores ou, com os negociadores de gado e os olivicultores, debaixo dos castanheiros duma praça de aldeia, a duas horas a pé de Roma, e já ninguém conhecia o seu nome nem tinha nunca ouvido falar dele.

 

 

Que era, pois, o pequeno público elegante da poesia comparado com as enormes massas humanas que, no circo, nos estádios e nas tribunas dos hipódromos, enriqueciam à força de gritar? A celebridade de Naso só valia onde as letras valiam alguma coisa, e ficava anulada assim que um simples corredor de longa distância se aproximava da vitória, arfando sobre uma pista de cinza, ou um acrobata transpunha o abismo de uma rua, caminhando sobre uma corda bamba.

 

 

Simplesmente comparado com o roçagar das vestes de cem mil súbditos que se levantam dos seus lugares nas arenas quando o Imperador aparecia sob o seu baldaquim, o aplauso num teatro era já um barulho modesto, ridículo.»

“O Último Mundo” de Christoph Ransmayr