Compreendo, embora a custo, que se ouçam um momento os poetas a recitar os seus versos; podem ser considerados como uma espécie de bobos, e nas cortes houve sempre gente da sua espécie. Cantam a nobreza e a pureza da alma humana, celebram os grandes acontecimentos e proezas, e a isso não se pode pôr objecção. O animal humano tem necessidade de lisonja, caso contrário não chega a tornar-se naquilo que deve vir a ser — nem mesmo aos seus próprios olhos. E há muitas coisas no presente e no passado que só foram nobres e belas porque houve quem as cantasse. Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.

O Anão, Pär Fabian Lagerkvist, Antígona.

 

Par Lagerkvist

 

Silêncio é uma palavra impossível.
Não corresponde a nenhuma realidade.
Não há silêncio no cosmos
nem em cada um de nós.
Numa sala sem eco,
entre sete paredes de cimento isolante,
ouve-se ecoar a circulação
do nosso próprio sangue.

António Barahona

A minha filha veloz virou a cabeça para o meu sexo. O tempo foi passando, melancólico e  sem idade. Porque ainda espera. Todos os dias ela se movimenta como uma raiz encoberta. Dou-lhe água. É Verão e da nossa casa vê-se o rio, mas ela tem a cabeça virada para baixo e não viu a cor da madrugada. Conto-lhe todas as paisagens, viro-me para o Norte. Onde não estou, te levarei um dia. O teu vestido derramado de vento, as árvores alucinantes, a abundância de verde, a neve onde deixas rasto, os animais fustigados por donos reles nos campos. Os animais escondidos na toca da oliveira quando é época de caça. O esquecimento por que passam aquelas gentes, onde a natureza abunda e nela pouco descansam.

190 Só contigo te salvas ou condenas. […] Ninguém pode ser por ti. O que és com os outros é o lado de fora de seres. Cerra os olhos sobre ti, ao menos de vez em quando. E adormece, se puderes, no centro do mundo. E terás conhecido a tua imortalidade.

Vergílio Ferreira, Pensar, Bertrand Editora, 1993.

 

Man Ray