Cortaram os trigos. Agora
A minha solidão vê-se melhor.

Sophia de Mello Breyner Andresen

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«Uns de nós estagnaram na conquista alvar do quotidiano, reles e baixos buscando o pão de cada dia, e querendo obtê-lo sem o trabalho sentido, sem a consciência do esforço, sem a nobreza do conseguimento.
Outros, de melhor estirpe, abstivemo-nos da coisa pública, nada querendo e nada desejando, e tentando levar até ao calvário do esquecimento a cruz de simplesmente existirmos. Impossível esforço, em que[m] não tem, como o portador da Cruz, uma origem divina na consciência.
Outros entregaram-se, atarefados por fora da alma, ao culto da confusão e do ruído, julgando viver quando se ouviam, crendo amar quando chocavam contra as exterioridades do amor. Viver doía-nos, porque sabíamos que estávamos vivos; morrer não nos aterrava porque tínhamos perdido a noção normal da morte.»

“Livro do Desassossego” por Bernardo Soares

 

– Estás descansado que o Governo não te há-de pedir justificações. Manda-te prender, e pronto.
– Manda prender-me porque quero trabalhar?
– Exactamente. Isso são ideias subversivas, será que não compreendes? Pergunto-me aliás quem tas terá metido na cabeça. Lembro-te que nasceste no seio de uma família digna, peço-te portanto que não manches a nossa reputação.

“Mandriões no Vale Fértil” de Albert Cossery