As Árvores não têm homens à altura. Se todos chorássemos, ninguém pediria chuva

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Não foi um dia triste.
Quando fui embora
nenhuma hesitação caiu sobre a minha cabeça
nem sombra nem poeira nem barulho.
O teu pai perguntou que horas seriam
algum tempo depois.
Vieste comigo como uma música antiga
o som do vento entre os limites
agitando árvores
tombando ervas
erguendo levemente os teus cabelos.
Transpusemos todos os muros sujos da cidade.
Limpámos a cara do trabalho
no fim do mês as nossas contas estavam feitas.
Nenhuma vergonha firmará o presente.

Esta noite sonhei que a minha filha já não usava o arnês de Pavlik porque lhe caíram ambas as pernas. Ela começou a andar com os braços, nadava no chão encerado e sorria. Ela também já não apresentava plagiocefalia, usava um aparelho como o do menino negro do Hospital da Estefânia. O Dr. Jordão apareceu no meu sonho e falou mais do que é habitual. Dizia: — Esta princezinha nunca será como as outras, sem pernas não pode conduzir o tractor do avô. Apareceu, ainda, a mãe mal arranjada com o filho de seis dias, estava toda despenteada, tinha muitas olheiras e não trazia o marido. O seu filho chorava e o Dr. Jordão trancou-se no gabinete. A outra mãe, de 23 anos, colocou o peito na boca do bebé e cobriu-lhe o rosto com um pano. — A maternidade é uma doença, disse eu bem alto. Ninguém ouviu.

 

Os afogados do verão
Os que morrem no outono
Os que o inverno gelou
Quem não pôde aguentar mais primaveras
Mais os sinistrados de todo o ano
Ganharam bem do tempo a morte.
Tu que continuas a pisar
Cada dia esse caminho
Cada dia igual e sempre diferente
À cabeça a encardida malga
Da sopa dos pobres que é dada
Não já por caridade nem rotina
Mas como ritmo ordenado
Fado dos tempos das estações da vida,
Tens bem mais alta sorte heróica:
Pagas maior vida
Vives cada dia a morte
Sem que sequer te importe
Mais que a aresta viva
De cada pedra a evitar
No sabido caminho
Igual ontem, hoje e amanhã.
Assim constróis o lixo suburbano
Donde subirão um dia
O que hão-de ser «os bairros novos
Da progressiva cidade»
Nos discursos municipais.

Os mortos dos jornais
E tu que nunca lá irás parar
Abrem as covas –
Para vós elas se fazem. –

Quem serão os vivos?

José Blanc de Portugal