As Árvores não têm homens à altura. Se todos chorássemos, ninguém pediria chuva

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Não foi um dia triste.
Quando fui embora
nenhuma hesitação caiu sobre a minha cabeça
nem sombra nem poeira nem barulho.
O teu pai perguntou que horas seriam
algum tempo depois.
Vieste comigo como uma música antiga
o som do vento entre os limites
agitando árvores
tombando ervas
erguendo levemente os teus cabelos.
Transpusemos todos os muros sujos da cidade.
Limpámos a cara do trabalho
no fim do mês as nossas contas estavam feitas.
Nenhuma vergonha firmará o presente.

Esta noite sonhei que a minha filha já não usava o arnês de Pavlik porque lhe caíram ambas as pernas. Ela começou a andar com os braços, nadava no chão encerado e sorria. Ela também já não apresentava plagiocefalia, usava um aparelho como o do menino negro do Hospital da Estefânia. O Dr. Jordão apareceu no meu sonho e falou mais do que é habitual. Dizia: — Esta princezinha nunca será como as outras, sem pernas não pode conduzir o tractor do avô. Apareceu, ainda, a mãe mal arranjada com o filho de seis dias, estava toda despenteada, tinha muitas olheiras e não trazia o marido. O seu filho chorava e o Dr. Jordão trancou-se no gabinete. A outra mãe, de 23 anos, colocou o peito na boca do bebé e cobriu-lhe o rosto com um pano. — A maternidade é uma doença, disse eu bem alto. Ninguém ouviu.

2017-10-07

 

Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,

basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,

um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação

de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.

Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.

Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos

de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,

Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,

de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.

Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,

a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,

ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.

Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,

errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,

escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade

e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.

W.H. Auden, O Massacre dos Inocentes, Assírio & Alvim.

Palavras não envelhecem.
Algumas procriam.

*

É necessário ser artesão da simplicidade. Nas manhãs claras, cada recanto, cada feixe de luz, um ruído nas escadas, a água a correr, os frutos sobre a mesa, retêm em si uma afinação ou uma espécie de perfeição. Tudo que no mundo é disperso e equívoco, se perde no poema. Simplicidade não é, todavia, facilidade.

*

Nem sempre se quer o que se tem.
Nem sempre se tem o que se quer.
É mal ou bem?

*

É Primavera,
ela flutua, a face pálida
enchendo o rio.
Ninguém te salva.
Ninguém fala mais
de tristeza, dor ou loucura.
Tempos modernos, Ofélia.