FIM

Finalmente, a chuva cai na cidade. Hoje não há consultas nem trânsito, apenas a casa rodeada de névoa. A minha filha tem olhos azuis, disse-me a pediatra que não mudam, que serão azuis. Não conheço ninguém com olhos azuis na família. Cada vez cresce mais, segue-me com o olhar, é muito branca e sorri. Não tenho tempo nenhum para mim. É desgastante e, simultaneamente, deslumbrante. Ouvimos muito Bach pela manhã. É uma alegria para sempre.

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Não foi um dia triste.
Quando fui embora
nenhuma hesitação caiu sobre a minha cabeça
nem sombra nem poeira nem barulho.
O teu pai perguntou que horas seriam
algum tempo depois.
Vieste comigo como uma música antiga
o som do vento entre os limites
agitando árvores
tombando ervas
erguendo levemente os teus cabelos.
Transpusemos todos os muros sujos da cidade.
Limpámos a cara do trabalho
no fim do mês as nossas contas estavam feitas.
Nenhuma vergonha firmará o presente.

Esta noite sonhei que a minha filha já não usava o arnês de Pavlik porque lhe caíram ambas as pernas. Ela começou a andar com os braços, nadava no chão encerado e sorria. Ela também já não apresentava plagiocefalia, usava um aparelho como o do menino negro do Hospital da Estefânia. O Dr. Jordão apareceu no meu sonho e falou mais do que é habitual. Dizia: — Esta princezinha nunca será como as outras, sem pernas não pode conduzir o tractor do avô. Apareceu, ainda, a mãe mal arranjada com o filho de seis dias, estava toda despenteada, tinha muitas olheiras e não trazia o marido. O seu filho chorava e o Dr. Jordão trancou-se no gabinete. A outra mãe, de 23 anos, colocou o peito na boca do bebé e cobriu-lhe o rosto com um pano. — A maternidade é uma doença, disse eu bem alto. Ninguém ouviu.

2017-10-07

 

Não é necessário observar o trabalho de alguém
para saber se é essa a sua vocação,

basta olhá-lo nos olhos:
um cozinheiro apurando um molho,

um cirurgião abrindo a pele,
um escriturário preenchendo uma relação

de embarque, têm a mesma expressão
distraída, embevecidos na sua tarefa.

Que bela é essa devoção
do olho pelo objecto.

Ignorar a deusa sedutora,
abandonar os sacrários magníficos

de Rea, Afrodite, Demeter, Diana,
preferir rezar a S. Focas,

Santa Bárbara, S. Saturnino,
ou outro padroeiro qualquer,

de cujo mistério se seja merecedor,
que passo gigantesco foi dado.

Deveria haver monumentos e odes
aos heróis desconhecidos que começaram,

a quem arrancou as primeiras faíscas
da pederneira e esqueceu o jantar,

ao primeiro coleccionador de conchas
que ficou celibatário.

Se não fossem eles, ode estaríamos?
Ainda ferozes, sem hábitos caseiros,

errando através das florestas,
com nomes sem consoantes,

escravos da Dama gentil, sem
noções da civilidade

e hoje à tarde, para esta morte,
não haveria agentes funerários.

W.H. Auden, O Massacre dos Inocentes, Assírio & Alvim.