Os afogados do verão
Os que morrem no outono
Os que o inverno gelou
Quem não pôde aguentar mais primaveras
Mais os sinistrados de todo o ano
Ganharam bem do tempo a morte.
Tu que continuas a pisar
Cada dia esse caminho
Cada dia igual e sempre diferente
À cabeça a encardida malga
Da sopa dos pobres que é dada
Não já por caridade nem rotina
Mas como ritmo ordenado
Fado dos tempos das estações da vida,
Tens bem mais alta sorte heróica:
Pagas maior vida
Vives cada dia a morte
Sem que sequer te importe
Mais que a aresta viva
De cada pedra a evitar
No sabido caminho
Igual ontem, hoje e amanhã.
Assim constróis o lixo suburbano
Donde subirão um dia
O que hão-de ser «os bairros novos
Da progressiva cidade»
Nos discursos municipais.

Os mortos dos jornais
E tu que nunca lá irás parar
Abrem as covas –
Para vós elas se fazem. –

Quem serão os vivos?

José Blanc de Portugal

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«Os livros de Naso estavam dispostos, nas montras das livrarias, em pirâmides e em mosaicos encimados por cartazes com o seu retrato, e até as prostitutas, nos bordéis da capital, iam buscar os pseudónimos às suas poesias eróticas impressas em grandes tiragens. Mesmo as cartas de amor das pessoas de bem não passavam, muitas vezes, de cópias das suas maravilhosas elegias.

 

 

Mas o nome de Naso acabava por vir também à baila quando se falava de escândalos, de festas ao ar livre, banquetes, dos luxos da moda ou das aventuras do poder… Não havia dúvida, Naso era famoso. Mas um poeta famoso, afinal, o que era? A verdade é que Naso só precisava de se ir sentar com os trabalhadores braçais numa taberna dos arredores ou, com os negociadores de gado e os olivicultores, debaixo dos castanheiros duma praça de aldeia, a duas horas a pé de Roma, e já ninguém conhecia o seu nome nem tinha nunca ouvido falar dele.

 

 

Que era, pois, o pequeno público elegante da poesia comparado com as enormes massas humanas que, no circo, nos estádios e nas tribunas dos hipódromos, enriqueciam à força de gritar? A celebridade de Naso só valia onde as letras valiam alguma coisa, e ficava anulada assim que um simples corredor de longa distância se aproximava da vitória, arfando sobre uma pista de cinza, ou um acrobata transpunha o abismo de uma rua, caminhando sobre uma corda bamba.

 

 

Simplesmente comparado com o roçagar das vestes de cem mil súbditos que se levantam dos seus lugares nas arenas quando o Imperador aparecia sob o seu baldaquim, o aplauso num teatro era já um barulho modesto, ridículo.»

“O Último Mundo” de Christoph Ransmayr

 

 

Silêncio é uma palavra impossível.
Não corresponde a nenhuma realidade.
Não há silêncio no cosmos
nem em cada um de nós.
Numa sala sem eco,
entre sete paredes de cimento isolante,
ouve-se ecoar a circulação
do nosso próprio sangue.

António Barahona