No corredor do hospital, Susana andava com dificuldade, a barriga enorme, pernas inchadas. Olhou-me e disse-me: — Queres dar à luz por mim? É fácil, fazes força várias vezes, prendes a respiração e aguentas. No fim, choras de emoção. — Não, já tenho uma cicatriz, levantei a camisa, um penso, arranquei-o e mostrei os agrafos. Também foi fácil, não senti nada. A meio da noite, vieram as enfermeiras ao quarto, levantaram-me da cama, mandaram-me ir ao WC para urinar. Lavaram-me com água morna, o meu corpo tremia e colocaram-me outro penso, deitaram-me novamente, não adormeci. A minha filha chorou a noite toda, como se não quisesse estar aqui. — Pela manhã, as mulheres andavam pelos corredores. Havia também Fernanda. Tinha a cara iluminada, não sorria. Não podia sentar-se, agarrava-se ao corrimão. — As enfermeiras mandaram andar muito para a recuperação ser mais fácil. — Recuperar. Não lhe disse nada, continuei pelo corredor. Através da vidraça, o sol era forte, vi passar o comboio como as dores desses dias. A minha filha continuou a chorar, como se não quisesse estar neste mundo.

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