Compreendo, embora a custo, que se ouçam um momento os poetas a recitar os seus versos; podem ser considerados como uma espécie de bobos, e nas cortes houve sempre gente da sua espécie. Cantam a nobreza e a pureza da alma humana, celebram os grandes acontecimentos e proezas, e a isso não se pode pôr objecção. O animal humano tem necessidade de lisonja, caso contrário não chega a tornar-se naquilo que deve vir a ser — nem mesmo aos seus próprios olhos. E há muitas coisas no presente e no passado que só foram nobres e belas porque houve quem as cantasse. Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.

O Anão, Pär Fabian Lagerkvist, Antígona.

 

Par Lagerkvist

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