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Na mágoa dos dias
amor
nasce-te uma ruga

mesmo de alegria

 

António Reis, Poemas Quotidianos, Tinta da China, 2017.

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Crê no escaravelho dentro do feto.

Paul Celan

 

Se bem te recordas, prefiro o Inverno, aqui há poucas árvores, aguento mal o calor. Não te esqueças de mim. Sou eu ainda, segura na minha tristeza. Não entro no mar, observo-o ao longe. Engordei cerca de 7 kg, a minha filha nasce brevemente. Afasto-me das mulheres que falam muito, eufóricas, dizem tudo ser maravilhoso. Não é. Não acredites. Pelo monte, subíamos a arder, o vento fazia o seu ninho, a neve começava a tapar os caminhos. Preparei tudo para a sua chegada. Um coração novo. Uma fome selvagem. Os choupos, folhas largas e verdes, cresceram sós, estão fortes. Pior tem sido a falta de chuva. O tempo perdido em lojas a escolher, fico tão confusa no meio de tantos produtos e marcas. Ouvir recomendações, opiniões sem que as peça. Preparei tudo, menos a tua ausência. O nevoeiro permitia conhecer a respiração. Bastava um sopro branco. Calai-vos. A Terra receberá todas as vossas línguas.

Compreendo, embora a custo, que se ouçam um momento os poetas a recitar os seus versos; podem ser considerados como uma espécie de bobos, e nas cortes houve sempre gente da sua espécie. Cantam a nobreza e a pureza da alma humana, celebram os grandes acontecimentos e proezas, e a isso não se pode pôr objecção. O animal humano tem necessidade de lisonja, caso contrário não chega a tornar-se naquilo que deve vir a ser — nem mesmo aos seus próprios olhos. E há muitas coisas no presente e no passado que só foram nobres e belas porque houve quem as cantasse. Os poetas, antes de tudo, celebram o amor, e têm razão, porque nada como o amor precisa tanto de ser transformado naquilo que não é. As mulheres tornam-se então melancólicas, enche-se-lhes de suspiros o peito, e os homens ganham um ar sonhador, pois todos percebem imediatamente que um poema que desfigura a tal ponto a realidade deve ser particularmente belo.

O Anão, Pär Fabian Lagerkvist, Antígona.

 

Par Lagerkvist

 

Silêncio é uma palavra impossível.
Não corresponde a nenhuma realidade.
Não há silêncio no cosmos
nem em cada um de nós.
Numa sala sem eco,
entre sete paredes de cimento isolante,
ouve-se ecoar a circulação
do nosso próprio sangue.

António Barahona