É uma felicidade ler autores como Miguel Torga. Somos tomados pela beleza e sagacidade. Os seus diários estão imbuídos da natureza, de referências culturais. Portugal não mudou muito. O retrato que tira é perfeitamente actual. Atravessa o país, constrói versos magníficos, as paisagens mudam e os homens, em certas ocasiões, perdem-se nos socalcos ou pulam para os rios. A dada altura, misturamo-nos com aquelas pinturas. A gente raramente consegue ler alguém com tanto prazer. Foi assim o domingo inteiro, lendo. Cheguei aos Ensaios de Montaigne já pela tarde, que ainda não finalizei. Estivemos depois com Sophia, se com Torga pusemos os pés na terra, com ela foi sempre a levitar.

Guimarães, 23 de Agosto de 1949 — A Penha cheia de cruzes e memórias.Estupor de país! Não tem um sítio bonito, que lhe não ponha logo um Cristo e um Gago Coutinho!
Ó senhores! Deixem as fragas em paz! Deixem os montes à solta! Não canonizem nem patriotizem tudo! Conservem um bocadinho da natureza na sua virgindade natural, quanto mais não seja para que Deus e os heróis se não sintam constrangidos, por modéstia, em toda a terra lusa!

Miguel Torga, Diários.

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