Tenho saudades da Patrícia, do seu rosto, de vê-la no baloiço da oliveira ou no rio. De rir com ela. Subir ao cume dos montes, ficar paradas, olhando as casas e os carvalhos. Do tempo em que a terra se levantava à nossa volta e, de ferida em ferida, a tristeza crescia nos livros abertos ao vento. Dessa linguagem de espanto como as raízes. A distância é tão bela.

A chuva não te serve de consolo. Recuas uns anos,
demoras em frente da janela.
O muro de pedra onde a neve abunda.
Um galho de nogueira quebra e cai silenciosamente.
Contas os dias monotonamente.
Olhas para cima, abre-se o céu.
Em algum lugar do Norte, deixaste a fome.

 

Encontrámos as partes,
mas ainda não o conjunto.
Falta-nos esta última força.
Falta-nos a esperança
como uma espuma branca que nos proteja e nos una.
Procuramos esse sustento salutar:
conviver,
perseguidos por uma espécie de incontinência verbal.

Na juventude, começámos com uma boneca de corda,
a que demos tudo o que tínhamos.
O fracasso estava, no entanto, treinado
para receber-nos, com luvas gigantes,
como se fôssemos bolas de basebol.
Continuamos calados. À procura. Com fome.
Não podemos fazer mais.

“Nadar na Piscina dos Pequenos” de Golgona Anghel

Lisboa, 7 de Maio de 1948 — Cada vez se torna mais difícil andar aqui, dormir aqui, viver aqui. A cidade cresce, cresce, cresce como um cancro que devora tudo, e nas ruas, praças e avenidas é uma tal correria, um bruhahá tamanho e um acotovelamento tão aflitivo, que a nossa fisiologia nativa começa a hesitar. E, contudo, o provincianismo espiritual que nos marca, que nos condena, que nos mata, permanece aqui mais teimoso do que nunca. Exposições de artes plásticas que parecem estendais de habilidades domésticas, teorias filosóficas que lembram congeminações de farmacêuticos de vila, versos e prosas de almanaque. Para quem vem das terras pobres da província e vê isto, impõe-se imediatamente um raciocínio: nunca esta Lisboa exprimiu a Pátria. Há nela uma espécie de vieirismo endémico, uma retórica natural, que contamina os artistas, os pensadores e os políticos. Um novo-riquismo que se opõe à sobriedade medular da nação.

Miguel Torga, Diário I-VIII.

 

Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

*

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente.
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

*

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

“A Única Real Tradição Viva” de Alexandre O’Neill