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Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio,
a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.

“Rente ao Dizer” de Eugénio de Andrade

 

«De tudo se depreende que é difícil viver sem obstáculos à fé, e que os homens esquecidos são mais bem-aventurados do que os que suscitam grandes sentimentos. O amor com que se louva alguém é menos profundo do que o amor com que ignoramos todo o mundo. Mas durante muito tempo viveremos ainda assim, em contratos de ignorância, protelando a simples confissão de que ir muito longe nos sentimentos é impedir a graça de os conservar.»

“Conversações com Dmitri e outras fantasias” de Agustina Bessa Luís

 

O dia ia fugindo e o ar cinzento
tolhia aos animais que estão na terra
sua fadiga; e em meu sozinho alento

me aparelhava a sustentar a guerra
que tal caminho e piedade atrai,
e há-de dizer a mente que não erra.

Ó musas e alto engenho, me ajudai;
ó mente que escreveste do que vias,
tua nobreza aqui provar-se vai.

E comecei: “Poeta que me guias,
vê se é minha virtude tão potente,
antes do alto passo a que me envias”

“Inferno, canto II” de Dante Alighieri