Enquanto escolhia tangerias, a rapariga da frutaria perguntou: — A menina é russa? — Eu? Não, não, sou do Norte. O K. ria-se e repetia “do Norte?!” Não liguei. Ainda procurei grelos no mercado, a mãe disse que nos campos agora há grelos bons, que faz batatas assadas no forno e acompanha com grelos, mas não havia nenhuns de jeito. O K. diz que em Lisboa há tudo, que é tudo bom. Abri a caixa do correio e havia um envelope que dizia: “Ouvir Lisboa”, lá dentro, vinha a cara da Assunção Cristas, ela ria na foto e como fundo aparecia um grande azulejo azul, bem tradicional. Isto não é, certamente, nada de bom, pensei. O bairro é bonito, sim, muito central, com transportes mesmo à porta, pastelarias em todo o lado, mercado, restaurantes, cafés, livrarias, é bem frequentado. Eu concordo, claro, é uma vida asseada, cosmopolita, sem galochas nem quinteiros.

johnisaacs

 

Não muita vez nos vemos, mas, se poucos
amigos há para falar
dos quais me sirvo de relâmpagos, de todos
é ele o que melhor vai com a minha fome.

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo na memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro. A pele é o espelho da memória.

“Poesia Completa 1979-1994” de Luís Miguel Nava

k16

Klimt, A Esperança I, 1903.

Todo o vocabulário erótico de Klimt está em ação, desde o corpo impudico e a pilosidade ruiva, da qual se desprende um certo clima de perversidade até a esses motivos penetrantes em relação simbólica directa com o ventre proeminente. A noite é também um dos elementos que circundam esta pintura, assim como a morte. Noite, morte, vida, ventre, arte.

DIA DOS NAMORADOS

A C. tem olhos azuis, ama alguém que lhe disse que acabou. Aquilo mal começara, foram uns meses, o rapaz escrevia longos textos apaixonados, agora está em silêncio total. Sabemos bem como o silêncio é contraditório. Diz-me que vai jantar com ele à sua frente. Colocará a foto no ecrã do computador, o seu prato na mesa, juntará uma jarra com rosas vermelhas e uma vela.

 

Captura de ecrã 2017-02-14, às 13.03.07.png

Fay nascera em Nova Orleães. Aos dezasseis anos foi cortejada por um homem de quarenta, cujos modos aristocráticos e distintos lhe agradaram.
Casaram-se, e Fay ficou instalada como uma princesa em casa dele, situada no meio de um enorme parque. Albert tratava-a com extrema delicadeza.
Na primeira noite não quis possuí-la. Pretendia ele que era uma prova de amor não forçar a mulher, sendo preferível levá-la com calma e vagar, até ela estar preparada e pronta para ser possuída.
Entrava no quarto e limitava-se a acariciá-la. Embrulhavam-se no mosquiteiro branco como num véu de noiva e ali se deixavam ficar, na noite quente, dando beijos e abraços. Fay sentia-se lânguida e como que drogada. Cada beijo dele fazia nascer em si uma nova mulher, criava-lhe uma nova sensibilidade. Depois deixava-a e ela ficava perturbada, sem conseguir dormir. Era como se ele lhe tivesse acendido pequenas chamas sob a pele, minúsculas correntes que a obrigavam a ficar desperta.
Albert comprazia-se em beijá-la até ela começar a gemer, como se não estivesse ainda bem certo de lhe haver despertado a carne em determinado sítio; e só depois os seus lábios avançavam mais.
Tão depressa ela começava a gemer, deixava-a, embrulhava-a bem no véu branco, como quem fecha um tesouro, e deixava-a ficar, húmida de desejo.

Passarinhos, Anaïs Nin, Tradução de Luiza Neto Jorge, Bertrand, 1981.

 

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