Hoje seria um belo dia para abandonar.
Silenciosamente, dorme uma ferida.
Por vezes, são como túmulos frios, lisos,
graves, de mármore.
É a única fronteira à vista.
O tempo passa como um eterno gemido,
estico os braços na varanda para sentir.
Minha mãe sempre me mandou lavar
a campa dos meus avós.
Levava o balde pela estrada.
Limpava a pedra, o crucifixo, olhava o retrato
de minha avó. Nenhuma memória.
Este seria um belo dia para voltar ao cemitério,
fixar os lírios,
a terra fresca que cobriu mais alguém da aldeia.
Fico na grande cidade.
Sei que alguém arrancava as pestanas dos mortos,
essa história contava-me o Júlio no dia dos finados.
Agora a sua boca cansada repousa num caixão,
foi-se na semana passada.
Nasce-se e morre-se dia e noite,
o tempo não traz esperança.
Cicatriza.

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Digam ! 
Lá porque estão acesas as estrelas, 
será porque elas são necessárias a alguém?
Será porque alguém há a desejar que existam?
Será porque alguém chama a esses escarros, pérolas?
E, vencendo
a poeirenta borrasca do meio-dia,
alguém corre p’ra Deus,
temendo chegar tarde,
chora,
beija-lhe a mão nodosa,
implora —
que lhe falta uma estrela! —
jura
que, sem estrelas, não pode suportar este martírio.
E depois,
lá vai com a sua angústia,
mostrando paz na cara.
Perguntando a qualquer:
“Agora, estás melhor, não é assim?
Já não tens medo?
Não?”
Digam !
Lá porque estão acesas
as estrelas —
será porque elas são necessárias a alguém?
será porque é — indispensável,
que cada noite
por cima dos telhados
uma só estrela, ao menos, se ponha a reluzir?

Maiakovski, Autobiografia e Poemas, colecção forma.

Vou falar do meu ofício não como mestre, mas como aquele que faz versos.

Uma vez repito categoricamente: não forneço qualquer regra de transformar um homem em poeta e de o levar a escrever versos. Essas regras não existem. Poeta é justamente o homem que cria as regras poéticas.

O tempo é também necessário para deixar uma coisa já feita repousar.

***

O teu corpo,
hei-de cuidá-lo e amá-lo,
como um soldado mutilado na guerra,
inútil, sem ninguém,
cuida
a sua própria perna.

Excertos de Vladimir Maiakovski, Como fazer versos, publicações Dom Quixote.

No Museu do Prado, houve uma pintura que me fascinou, chama-se “As três idades”. Vi os trípticos, são esplendorosos. Olhar, olhar com espanto. Li a história da rainha que desenterrou o marido, observei a pintura. Está frio em Madrid, o vento faz círculos, a luz é irregular, escassa e fugaz. Ainda falta chegar a Renoir.