O Homem traz com ele para o mundo tudo o que tem ou pode ter. O Homem nasce como um jardim com as plantas já semeadas.

William Blake

nopaisdamagia

Anúncios

TU VOZ

Emboscado en mi escritura
cantas en mi poema.
Rehén de tu dulce voz
petrificada en mi memoria.
Pájaro asido a su fuga.
Aire tatuado por un ausente.
Reloj que late conmigo
para que nunca despierte.

Alejandra Pizarnik, Poesía Completa, Lumen.

 

A tarde toda tocou Lacrimosa. O meu cabelo cresce com a música. Não sou triste, embora acredite que é mais belo tudo quanto possui tristeza. E posso, então, ser triste para aceder a alguma beleza. Os mortos fazem-se dia e noite em países distantes e no quarto ao lado. Os pedintes das ruas lisboetas mudam de lugar, fixo-os. Nada desejo mais do que música. A beleza é um jardim onde tudo tem voz. É necessário manter o corpo aberto para a dança e a miséria do mundo. Deus chama. Ninguém recorda o seu nome. E a ira d’ Ele cai sobre nós.

Cães dos bidões

Os cães saltam, ladram,
enroscam-se nas correntes de ferro
presas na coleira.
Parecem bárbaros, os cães,
a baba nos cantos da boca,
dentes à mostra.
As correntes batem nos bidões,
fazem barulho.
Pela aldeia, crescem, com estrondo,
cães dentro de bidões.
Cães fortes para guardar as casas caídas
com velhos dentro.
Passeiam em volta dos bidões,
geografia circular.
Todo o dia, esticam as correntes,
ladram quando passam desconhecidos,
de olhos vagos, batem as correntes nos bidões,
aguardam os restos da refeição,
deitam-se e tremem.
É fácil enlouquecer ao lado destes cães,
a vida toda com sonhos metálicos.

Não durmo, respiro mal por causa da constipação. A noite nunca mais acaba, devo ficar em silêncio para não acordar o K. Apetece-me acordá-lo, falar, mas amanhã trabalha e  não posso, oiço-o respirar. É sereno visto assim. Durante o dia, não. Usa sempre muitas palavras, argumentos, enche a boca. Parece, na verdade, as ruas lisboetas atulhadas de gente. Vivo no bairro de Campo de Ourique, onde a especulação imobiliária é febril. Toda a gente deseja morar aqui, menos eu. Ver o eléctrico 28 cheio de turistas, as filas dos supermercados, os cocós de cão pelos passeios, lojas e mais lojas. É bonito? O Jardim da Parada, logo pela manhã, cheira a mijo, não sei se é de cão, se de homem ou mulher. Mijo é mijo, venha de quem vier. Visitei a casa do Pessoa, comprei livros numa alfarrabista e na livraria Ler, tenho andado por aí. Por vezes, o bairro parece-me bonito, principalmente quando desço para a Estrela. A verdade é que antes via bem o Marão. Os pássaros faziam ninho nas telhas de casa, havia silêncio no horizonte. Por que motivo não durmo e penso a noite toda? As pessoas não gostam de uma vida simples, preferem o glamour citadino, estes bairros comerciais e centrais, prédios e prédios. Criámos máquinas para suprir as nossas necessidades, “a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Um dia volto para a aldeia, tenho certeza. Prefiro ver bosta de vaca a fumegar que estes cocós quotidianos. Lisboa é o centro. O centro é o desvio. O K dorme profundamente, apetece-me acordá-lo com bofetadas. Não faço nada, escrevo disparates às quatro da madrugada, tenho lido algumas coisas, salto de livro em livro, afasto-os, puxo-os para a cama. Sei bem que não existe salvação para mim, fui posta no mundo. Agora ponho eu uma criança no mundo. O mundo tratará dela e eu também, sinto que será terrível e magnífica, louca, pura. Ela não me deixa dormir, uma criança de aço inquieta-se no meu ventre.

6b2

Há muito tempo que a vontade de escrever me abandona. No entanto, hoje, ao comer o dióspiro, saboreei entre os meus dentes uma desordem clara. Leio e não tenho paz. Não quero paz, quero a destruição que vem do mundo. Cresce-me uma criança. Uma criança em meu ventre, um pequeno mal-estar de madrugada. Talvez a minha faculdade de escrever se perca, talvez nunca tenha existido. Suspeito de mim. Agora tenho uma criança para colocar na erva, para levar aos pomares, virá-la para o sol e deixá-la receber imagens. Segurará a pedra e brotará nos rios, esta criança. A morte cairá sobre ela como uma veste, mas a música e as estrelas serão o seu consolo, aí terá a sua força. Uma criança movendo-se ao vento. Dou-lhe a cor forte do dióspiro e a minha solidão. Dou-lhe o pai feliz no espelho, todos os prazeres e todas as dores.