No salão de cabeleireira riem as mulheres. “Habitua-te, as cabeleireiras são uma espécie de psicólogo, só que mais barato.” Nas vitrines estão coladas pequenas bandeiras de Portugal. Espero. Na mala tenho alguns livros e uma garrafa de água. Não pego num livro. “Estás com uma pele fantástica e essa cor favorece-te imenso”, atalha para a cliente. No Verão, a boca das mulheres é mais pequena, o sol torna os lábios vermelhos, acetinados. “Eu gosto de um homem com “grana”, sempre me leva a um bom restaurante e a um sunset à beira-mar. Não precisa contar tostões.” Escorre-me um pouco de suor pela nuca, o meu cabelo é abundante para cortar. Há mulheres que fazem as unhas, outras que marcaram hora para fazer a depilação, entram para uma porta branca, desaparecem. Começa a cair cabelo no chão, como se se pronunciasse o Outono. Espelhos onde nos refletimos e rimos de palavras leves que se esquecem rápido. “Tens um cabelo bonito, não o pintes já, espera uns anos, um acobreado aqui vai ficar mesmo espectacular”, diz-me. “O que mais me custou, quando cheguei aos quarenta, foi ver o cabelo branco, tive que pintar”, explicou a mulher da cadeira do lado. Fixo os espelhos, as suas cabeças loiras, ruivas, morenas brilham.

Raparigas, poetas há que de vós
aprendem a dizer quão sós estais,
e aprendem de vós a viver distantes
como as tardes em grandes astros
se acostumam à eternidade.

Das Raparigas, O livro das Imagens, Rilke.