13690724_1733164010233731_688609623744229739_n

Gosto de encontrar um rio com pedras que encaixem no meu corpo ou que o meu corpo encaixe nelas, à mercê do leitor. Hoje encontrei uma pedra que encaixava na minha barriga e outra que encaixava nas minhas coxas. Gostei de ambas. A das coxas parecia um sonho, a da barriga não sei, mas também era bonito o que sentia.

Não pode haver melhor sítio para estar do que um rio com pedras que encaixam nas nossas curvas.

*

Os sonhos que tenho, tenho-os sentada. Antes de serem sonhos já têm o destino traçado. Feitos sentados assim o são e herdam todas essas características. Molengões, arrastões, dorminhocos. As coisas que realizo não são sonhos, essas foram feitas de pé.

*

Agora que acabo de me livrar da maldição imagino as danças que farei com os rapazes no sábado na discoteca da vila, o à-vontade com que lhes falarei. Como será o meu novo amor? Lerá livros e escreverá poemas? Por menos não quero.

Textos da P.

Ria-se a mulher gorda do Sr. que chorava o cão morto no caixote.
— Deixe que a vida continua, era só um cachorro. Quer cozido?
— Hoje não posso comer. Vou enterrar o meu cão. Levei-o vivo ao veterinário e trouxe-o morto.
O homem chorava e ela ria-se a contar. Trouxe o cão morto num caixote, na mala do carro. Tinha um tumor e não aguentou a operação. Muita gente riu, tratava-se de um cão. A aldeia cabe toda no ventre de um cão. As pessoas começaram a ficar negras e embrutecidas. Ou será que sempre assim foram?

*

Continua tudo igual: as árvores estão verdes e altas, esta é a minha alegria. Sinto um frio à noite e cubro-me com o cobertor na varanda de casa. É uma escuridão tão profunda que se vêem estrelas, há muito tempo que o céu não era assim.

PapiniBalanced

Papini tem sido para mim um autor extraordinário, gosto muito de o ler. Num pequeno livro chamado Loucuras do Poeta, pode ler-se um pequeno conto: O Fabricante de Nuvens. Em Um homem Liquidado, ou em italiano que é mais bonito, Un Uomo Finito, há textos que parecem diários. Vou deixar um excerto de cada:

— As nuvens — respondeu-me — são para mim as mais fantásticas e estupendas surpresas da natureza. Instáveis como uma mulher, errabundas como os anjos, mudáveis como um sonho, leves como uma fascinação, divinas como uma obra-prima.
Que são as nossas existências senão pequenas nuvens efémeras e vagabundas que, no fim, se desfazem em pranto ou se dissolvem na luz?

Giovanni Papini, Loucuras do Poeta, Livros do Brasil, Colecção Miniatura.

 

O MEU CAMPO

Além de aos livros e aos mortos, devo a minha alma às árvores e aos montes. O campo educou-me tanto como a biblioteca. Um certo e determinado campo: tudo quanto há de poético, de melancólico, de cinzento e de solitário em mim, recebi-o do campo de Toscana, do campo que circunda Florença.

 

Lá em baixo estão os abutres que se alimentam dos corações inconsumíveis.
Matteo Palmieri

Giovanni Papini, Um homem liquidado, Livros do Brasil.

Comprei os diários do Miguel Torga, lia-os nas bibliotecas das escolas, não os tinha em casa. Cada vez gasto mais dinheiro em livros, vou contra os conselhos da minha mãe que toda a vida só me falou em poupar. Abandono Lisboa com muita vontade, vou atirar-me aos rios e andar pelos montes, mas sei que ainda me aguardam livros que desconheço. Lerei atentamente os diários do poeta telúrico, irei a S. Martinho de Anta com o K.

 

Vila Nova, 22 de Janeiro de 1936 — A intimidade desta vida de aldeia é um espectáculo ao mesmo tempo repugnante e maravilhoso. Estrume da cabeça aos pés. Entre o porco e o dono não há destrinça.

Mas, ao cabo, esta animalidade toda, de tão natural, acaba por ser pura como a bosta de boi.

Miguel Torga, Diário I-VIII, pág. 17, Coimbra 1995.