Passou por mim um anjo em queda.
Andava na Avenida D. Carlos.
— Não te admires da tormenta.—
O tempo de Verão deixa as árvores altas,
as folhas caem devagar na hora da morte.
— Dá-me a tua mão para conhecer o perfume. —
— Tens os olhos baços, tremes. —
Sonhas uma parte da dor.

 

Hugo_Simberg_-_The_Wounded_Angel_-_Google_Art_ProjectHugo Simberg

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colarusso

 

FOLHETO

Sou o comprimido calmante.
Actuo em casa,
sou eficaz na repartição,
sento-me no exame,
apresento-me em tribunal,
colo minuciosamente a louça partida.
Basta que me tomes,
que me ponhas debaixo da língua,
que me engulas
com um copo de água.

Sei o que fazer na desgraça,
como aguentar a má notícia,
diminuir a injustiça,
desanuviar a falta de Deus,
escolher o chapéu de luto a condizer.
Por que esperas?
Confia na piedade química.

 

Wisława Szymborska, Alguns gostam de poesia, seleção, introdução e tradução do polaco de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves, cavalo de ferro.

– Um livro é um templo –

 

Farei uma cidade modelo — ou antes uma cidade especializada na calma, e no trabalho personalizado cuidado e acabado, — manual ou não.
Seriam rigorosamente proscritos ou proscritas dessa cidade as máquinas ruidosas, as notícias, a publicidade, o cinema, os aparelhos de rádio, o telefone nas moradias — e a política.
Duma forma geral, tudo o que acelera brutalmente a existência e interrompe o curso das ideias ou das ocupações — e confere a qualquer vida a aura de um espírito inquieto.

Paul Valéry, Fragmentos Narrativos, Dois Dias Edições, 2016.

 

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«Podemos surpreender um estudante a dizer: “Ah, este livro é interessante, amanhã venho roubá-lo!” E depois vão passando informações entre si, por exemplo: “Olha que na livraria Feltrinelli, se te apanham, levas”. “Ah, bom, então vou roubar à Marzocco onde abriram agora um novo supermercado”. No entanto, quem organiza as redes de livrarias sabe que, a dada altura, uma livraria com um alto índice de roubos é também aquela que mais vende»

“A Biblioteca” de Umberto Eco