ALGUÉM ARRANHA A PEDRA

 

Diário, março de 2014

Esta noite falou-me um homem que vive na capital, desconheço quem seja. Começou com um galanteio e nem imagina que tenho as pernas cheias de pêlos, que me sinto extremamente depressiva, não me apetece cuidar de mim. Fecho-me em casa e não me apetece ver ninguém, estou farta de conversas.
Respondi-lhe. Prometi-me ser só, mas este homem confunde-me. Leio trechos impressionantes.

*

Gravei-lhe poemas para ouvir, gostou. Cantou-me uma música e achei-o bastante afinado. Este homem dá-me alegria, coloquei a música da Lhasa que me mandou na pen do carro, escuto em repeat todos os dias. Hoje chovia muito ao fim da tarde, pus o volume no máximo e fui à montanha para ouvir melhor.

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Ler poemas como quem come maçãs. Uns gostam, e ficam satisfeitos. Outros tentam ir mais longe e saber de onde vem o gosto e como ele é. Uma maçã que seja boa, bela e verdadeira resiste tanto à dentada saborosa do leitor que se entrega, como à análise do crítico.

Ulla Hahn, A sede entre os limites.

[…]

As pessoas fungam:
cheira a queimado.
Chamaram a brigada
cintilante.
De capacete!
Não se pode entrar de botas!
Digam aos bombeiros:
só com carícias se pode apagar um coração a arder.
Eu próprio
deitarei dos olhos catadupas de lágrimas.
Deixem-me descansar.

Salto? Não salto? Salto?
As lágrimas caíram.
Não se pode escapar ao coração!

No rosto ardente,
dos lábios gretados
um beijo carbonizado quer erguer-se.

[…]

Vladímir Maiakovski, A nuvem de calças, trad. de Manuel de Seabra.

Escondo-me no trabalho. Leio, na passagem do eléctrico, “PROPRIEDADE PRIVADA”. Gostaria que ficasse esclarecido que não quero ser proprietária de absolutamente nada. Dizes que o dinheiro aumenta os nossos desejos, estás enganado. O desejo natural almeja chegar ao infinito, a uma falésia aberta sobre o mar, à música, ao vento, à pedra. Estou cada vez mais presa à cidade. A culpa é de muitas pessoas, dos professores que me ensinaram mal, dos meus pais, para quem fui um encargo, uma vergonha, um transtorno. Uma peça que não encaixava em lado nenhum. Escondo-me no trabalho, escrevo pouco, dói-me a cabeça e as costas. Observo a cidade, o rio enorme, a ponte, estou atenta ao som do comboio. Onde poderei encontrar salvação? Sinto que não posso regressar a lado nenhum, não pertenço a qualquer local. Pela manhã, num dia de feriado, escuto Mieczylaw para voltar a mim.

 

HENRY MILLER A ANAÏS NIN

 

Se eu te amasse a horas certas,
abririas as pernas com menos cuidado?
Se eu começasse sempre pela língua,
julgar-me-ias menos bruto?
E se eu não te mordesse o pescoço,
acaso continuarias a cravar-me as unhas nas costas?
Se eu não apagasse a televisão,
adormecerias aconchegada à minha cintura?
Se eu tomasse banho depois de fornicarmos,
julgarias o acto mais higiénico?
Se em vez do silêncio depois do orgasmo
passássemos a ter uma confissão no olhar,
perdoar-nos-ia deus o desperdício?
Já agora diz-me: se não dependêssemos
um do outro, como é que explicarias
o teu cheiro nas minhas palavras?

Dança das Feridas, Henrique Manuel Bento Fialho, Colecção Insónia, 2011.

 

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