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«Tenho uma doença: vejo a linguagem»

“Roland Barthes por Roland Barthes” de Roland Barthes

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Gonçalo M Tavares: O que me parece é que é fácil fazer coisas aos 38 anos. O difícil é continuar, continuar, continuar… Porque está tudo lá fora. Há raparigas bonitas a passar e nós sentamo-nos a escrever.

António Lobo Antunes: Às vezes sento-me contrariado, não me apetece. Mas obrigo-me e, às nove da manhã, cá estou eu.

Gonçalo M Tavares: A parte mais difícil é mesmo sentarmo-nos.

António Lobo Antunes: E resistir às tentações.

 

http://visao.sapo.pt/actualidade/cultura/campo-contracampo=f497063

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No amor moderno ninguém se atirou do décimo andar.
Acabou, partilharam os bens.
Ninguém gritou, os vizinhos sentiram muita paz.
Ao terceiro dia, começou a tocar
uma velha musiquinha Aquellos ojos verdes.
A terapia salvou-os.
No amor moderno não cabe uma dor de cabeça
nem contradições temerosas.
Alguns casais pedem comprovativo de saúde
antes dos corpos se sufocarem.
Suponho.

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De cada vez que regresso
Ao meu país
depois de uma longa viagem
O primeiro que faço
É perguntar pelos que morreram:
Qualquer homem é um herói
Pelo simples facto de morrer
E os heróis são os nossos mestres.

E em segundo lugar
pelos feridos.

Só depois
não antes de cumprir

Este pequeno rito funerário
Me considero com direito à vida:

Fecho os olhos para ver melhor
E canto com rancor
Uma canção de começos de século.

“Ulisses já não mora aqui” de José Miguel Silva

Em Lisboa ouvem-se muitos pássaros. Além da animação que havia no Chiado, das filas à porta dos gelados Santini, também se ouviam pássaros. Comprei, finalmente, o livro que tive nas mãos há duas semanas, ele continuava lá, no mesmo local, na livraria Sá da Costa. Nada sabia sobre José Duro, gostei dos seus poemas naquela tarde, morreu com apenas 23 anos. Duro é o poeta do sentimento tornado bolor, da mágoa feita de fel, como disse Santos Tavares.

 

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A caveira

 

Encontrei-a uma vez, a lívida caveira,
A rir, sinistramente, em doidas gargalhadas…
E pensei, n’ esse instante, ó almas torturadas!
Que ella seria em breve a minha companheira.

Depois vi, por meu mal, n’ aquella ossada nua,
Que a Morte descarnara, em ancias, brutalmente,
A imagem do meu ser, gelada e inconsciente,
Bebendo a luz do sol e as lágrimas da lua…

E tive ainda mais ódio a este viver tristonho,
Que arrasto, sem te vêr, eu que por ti vivia,
Ó alma da minha alma e sonho do meu sonho!

Entretanto, começava o dia a esmorecer…
E eu fui-me perguntar à Sombra, que descia,
Se acaso não seriam horas de eu morrer!