Vem-me água azeda à boca, enrolo-me um pouco
no meio do tapete e passa.
Apodrece qualquer coisa dentro de mim.
Cortei um dedo a partir broa,
essa ferida está branca.
Coberta com um penso há três dias.
De vez em quando, escorre líquido amarelo.
Talvez fosse melhor
deitar tudo de uma única vez num bacio.
Continuo a olhar pinturas de Bosch, só isso
me tem realmente aliviado.
Fechar-me em casa só com algumas imagens
e não sair de novo nesta época.
Nem isso posso fazer, lamentável. La joie de vivre!
Entedio-me, entristeço, sou um autêntico desaire.
Vejo o riso alheio, a alegria alheia, o amor alheio
e não desejo nada disso, apenas gostaria de ficar
fechada em casa a ver com atenção como evolui
esta ferida que já não dói e não sara.
Não, visto-me, penteio o meu cabelo ruivacento e
cumpro o destino. Cumprimento toda a gente,
fico calada, seguro o vómito.

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Naquele tempo, a mulher sem uma perna vivia na aldeia. A mulher estava ao alto e, com a sua única perna, pulava de alegria. Que Deus castigue quem ama a parte. Quem tinha duas pernas ajoelhava-se. A mulher amarrava um pau à perna que não tinha e dizia: “— Deus ma deu, Deus ma comeu.” Na aldeia, ninguém fazia caso, nem mesmo quando a perna mole tornava a barriga do Deus escura.

Naquele tempo, um homem amava aquela mulher e daí a Humanidade cresceu e multiplicou-se cheia de falhas e imperfeições.

nicholasbruno

 

«O dicionário diz que ‘aguentar’ é segurar uma corda que corre; resistir ao vento, como uma vela. Ela sempre usa a palavra ‘aguentar’; faz parte do seu repertório de vida. Quando alguém diz que tem um problema, que não consegue fazer qualquer coisa, ela sempre fala: ‘aguenta sim; a gente aguenta tudo; é só querer’. Ninguém consegue nem pode contestá-la, já que ela passou pelo que passou. Aguentar tudo, para os humanos, que não são como as velas de um barco, tem um preço. No caso dela, foram as circunstâncias que a obrigaram a aguentar. Em outros casos, diferentes de frio, fome, sede, talvez não seja necessário nem aconselhável aguentar tudo; talvez seja até preciso resistir menos, ser um pouco mais fraco, para que as consequências de segurar uma corda que corre não sejam tão drásticas. Mas não no frio. No frio, é preciso segurar a corda que corre. O frio é uma corda que corre impiedosamente e quem passa por ele deve ficar com a alma mais seca, assim como a pele que endurece e também seca no contato com ele. Depois do inverno, as temperaturas muito baixas se esquecem, e é por isso que ela não consegue entender agora como conseguiu aguentar. Mas o frio deixa suas marcas indeléveis e secretas. Alguém que passou pelo frio intenso, sem agasalhos, é diferente de alguém que nunca passou por isso.»

“O que os cegos estão sonhando? – com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945)” de Noemi Jaffe