Ainda bem que vieste, vou falar-te da minha fome.

A fome chegou até mim como uma longa depressão. Durante anos, andei por aí, sabes, ninguém me ensinou a comer. As escolas eram rápidas, substituía sempre alguém. (As crianças sempre me alegraram.) A paisagem de Baião ainda hoje me sorri e o frio seca-me os lábios. Tenho paisagens coladas na pele. Funcionam como quitina. Trago um pedaço de cada local, por isso me pesam as costas e ando com dores. Sim, poderá ser de alguns livros de poemas que levo desnecessariamente todos os dias na pasta, dirás. Não tenho tempo para os ler ou rasgar. Como gostava de gritar para toda a gente:
— Vejam, trouxe-vos Guillevic, Prévert. — Não. É incontornável.
A minha fome é o que me resta. Fui para as bibliotecas tentar refreá-la, mas apossou-se completamente de mim, é uma doença. Quando vivi em Almada, perto do teatro azul, pelo menos em três ocasiões, tive vontade de lhe atirar pedras. Mas fechei-me em casa.
Quem a plantou sabe bem o que fez. Traz-me vivências perturbadoras, tudo que aconteceu até hoje foi comandado por Ela. Actuou em silêncio e quando me tomou, não satisfeita, fez-me vomitar. Não podia dormir, não podia ficar muito tempo distraída do vento dos montes, do som dos bichos, da visão das cáries das crianças.
— Onde estão os teus pais? — Eu vivo com outros rapazes, desculpe, não fiz os trabalhos de casa. Bateu na mesa a chorar, desculpe. A minha mãe existe, mas não me quer. Conhece alguma mãe que não queira o próprio filho? Senti-lhe o cheiro, saí por entre as pernas dela. — Como se chamava? Carlos, seria? Foram tantos… Há pessoas que não nos querem nas suas vidas. Não lhes dá jeito, o trabalho é muito, o dinheiro pouco. Adiamo-nos. Cansamo-nos. Há a fome. A fome come.
Ouve, no pátio estão todos reunidos e falam, olham-se, não se tocam. Vim trazer-te esta fome que me imobilizou durante anos e agora entrego-ta. Come a vida que me sobra, é tua. Há já muito tempo que tenho tentado explicar.

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