Desce devagar pela cidade e aprende o nome
das ruas para não te perderes novamente.
Presta atenção, pára. Este largo é o do Rato.
Sim, o trânsito nunca hesita, desce, sobe, contorna,
atordoa. Ouves o caos enquanto a chuva escorre
pela grelha de ferro e tu enumeras nomes que abandono.
No eléctrico chocalhamos e seguras-te, abres as pernas,
desconfias da minha agilidade. Está a nevar, disse-o de manhã,
não acreditaste. Calço as luvas e viro-me de costas.
Nesta casa viveu Fernando Pessoa durante algum tempo,
também viveu numa rua em Campo de Ourique. Ao fundo,
na zona dos prazeres, está o cemitério. Não precisamos ir mais longe.
Porém, continuamos. Se pudesse estrear um nova cidade…
Limpar o abismo das ruas, esculpir homens cujo vício
fosse apenas o silêncio.
A neve continua a cair, as árvores brancas do Jardim da Estrela.
Movimentas a boca, a tua barba irrompe da pele
e não tens medo. Na Praça da Figueira, está um homem atirado na calçada,
como a roupa suja.
À sua volta, as pessoas tomam café, lêem jornais, levam sacos
nas mãos, falam línguas profusas. Estou em muito lado.
Detenho-me perto do homem caído. O fedor vem dos cartões
e tudo está em paz.

Apanho os restos do dia. Perco-me facilmente.
Vou um dia deixar-te nesta cidade.

 

juliagriffin

Eu vim a uma cidade onde corro um grande risco: Lisboa. Em nenhum lugar me aflige mais transgredir algum preceito, ou regra. Mesmo se não falam de mim, e ainda não fui convertida em qualquer linguagem; no entanto, cheguei à cidade e decidi ficar […]

Um Falcão no punho, Maria Gabriela Llansol.

 

nicholas-bruno_photography_030

 

dirkstaschke

 

Já não há poetas.
Há vacas para o matadouro,
prontas para o abate.
Morte limpa e certeira: um livro de poemas.
Morte organizada e asséptica entre capa, lombada
e fotografia da jovem vaca enquanto poeta.

Todos os dia é preciso matar uma vaca,
imprimir um livro, chamar-lhe poeta
Cabeças de gado para servirem a horda faminta de
comedores de carne poética processada.

Cada vaca dá poesia para dois meses.
Três no máximo.
Depois passa de validade.
Chama-se outra.
Corta-se-lhe as orelhas antes da estocada final no coração.
A coitada, dizem, não deu por nada.

Sai mais um livro ainda a pingar sangue
A carne fresca sempre agradou aos empreiteiros
E os congeladores não têm espaço para mais poetas.
Alguns estão lá há anos e
ninguém os come

Sobretudo aqueles que ficaram intactos,
os que ninguém petiscou.
Aqueles que serviram apenas para compôr a mesa
nas revistas de fim-de-semana:
os idiotas precisam de poetas a quem dar estrelas.

E as vacas gostam das estrelas,
dos idiotas e das revistas de fim-de-semana..
As vacas acenam com a cabeça e abanam o rabo:
estão contentes com a sua morte.
Gostam de ver a sua carne a apodrecer ao sol
dos elogios.
Fast-poemas comprados numa editora drive in,
embrulhados e servidos em papel colorido
Enquanto os poetas se fantasiam numa vida lendária
de animais selvagens

Até o Herberto se tornou uma vaca leiteira
que dá poesia todos os anos,
sempre a tempo da feira do livro.
Como será o leite dos mortos?
Oh coelacanto, já ninguém te quer conhecer,
Agora querem todos comprar-te!

E quando não há Herberto,
há noviças.
Engordadas à pressa com ração de Cesariny
Ou
Meninas de boas famílias que escrevem versos
com putas e conas e fodas e nisso reside todo o seu génio
e nisso reside a sua ousadia, a sua eternidade
E chega para vender mais uns quantos livros
e uma noite de poesia na Barraca

Mas não escapam às grandes arcas frigoríficas dos talhos modernos;
Tens a cona congelada, idiota
e agora ela já não te serve para nada,
porque conas congeladas há muitas e só tu, poeta,
não tinhas percebido.

O povo agora compra poesia.
Antes comprava casas e carros e viagens a Cuba.
Agora compra poesia barata.
Produzida em massa nas tascas:
fast-food, fast-glory
As palavras são tóxicas,
potencialmente cancerígenas,
eventualmente fatais,
mas ao menos não há hipoteca,
nem credores.

A poesia já não é morte a crédito.
É morte comprada barata,
para adornar a pobreza.

Poesia, máquina de imprimir livros,
mortos em série,
de forma limpa e sistemática.
Entre capa, lombada e ilustração personalizada:
a cada vaca o seu carimbo

E elas morrem. A poesia morre.
Mas todos estão contentes.Contentados.
A morte tem agora um carimbo,
a marca do dono
Pobre arremedo de eternidade!

E tu quando vais para o matadouro?
Olha que morres na mesma, mas morres sozinha.
Olha que os poetas já não gostam de solidão.
São vacas de circo, da graça feérica da miséria.
Imprimem-se livros, paga-se o bilhete, vê-se o espectáculo.

O povo grita, aplaude, grita bis
A vaca lança o livro para a plateia
Alguém o apanha
Alguém o lê em apoteose.
Há aquele verso extraordinário e ele grita:
Ca-ra-lho!
E o povo rebenta em uivos e aplausos.
E triunfante a vaca agradece a sua morte,
o seu aviltamento,
a vaca agradece que a comam.

A poesia morta vai em digressão.
O empresários do matadouro garantem que em todas as salas
alguém leia aquela passagem providencial:
Ca-ra-lho!

Os mais influenciáveis começam a sonhar
nos seus moleskines comprados na Fnac
e escrevem com enlevo três metáforas, dois trocadilhos e um palavrão a rematar o verso.

Todos os dias há mercado.
Todos os dias há poemas frescos,
Compram-se em saldo ao fim de um mês em banca.

Joana Emídio Marques

Sinto muito a falta das montanhas, sei que nevou no norte. Recordo-me de uma tarde de Fevereiro em que andava na estrada abandonada, nevava, parecia haver um nevoeiro cerrado, não se via ninguém. A minha irmã telefonou-me para dizer que a carrinha devia ser puxada pelo tractor do pai, ficara na vila, não havia outra forma de conseguir colocá-la em casa. Mandou-me correr até casa. Corri muito, cheguei a arfar perto do barraco velho. Parei e vi o meu pai, à distância, com lenha nos braços e o cabelo branco. A nogueira enorme,  nunca esquecerei aquela imagem. A cidade não me encanta, tem demasiado barulho e gente. Fui, pela primeira vez, de comboio para o trabalho. O carro estava na oficina. Perdi-me, não sabia que eléctrico devia apanhar, saí numa estação errada. Caminhei. Um italiano bêbado falava muito alto e dizia coisas engraçadas. As pessoas parecem cansadas na cidade. Falam bem, sabem sempre onde estão, as pessoas da cidade são muito rápidas a desaparecer. Seguem confiantes pelas ruas, chamam táxis, levantam o braço e dizem para onde vão. Quando a mim, sentei-me numa paragem e esperei, passou um eléctrico, levantei o braço, entrei com uma única certeza: viver em Lisboa tem-me proporcionado ler muita poesia — tudo que sempre desejei.

465612_239734056149817_1908946403_o