O que é a vida? É o brilho do pirilampo na noite. É o sopro de um bisonte no inverno. É a sombra que corre sobre a erva e se some ao fim do dia.

A Fala do Índio, Teri C. McLuhan

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«Chame-se émulo comum de todos os heróis quem é centro de todas as suas proezas, e equivoque-se o aplauso em brasões com eminente pluralidade. O afortunado, por sua felicidade; o animoso, por sua bravura; o discreto, por seu engenho; o catolicíssimo, por seu zelo; o despejado, por seu garbo, e o universal, por tudo.»

“O Herói” de Baltasar Gracián

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«Vivemos um tempo mundializado em que todos os humanos vivem em comum perigos e problemas vitais. Mas como os espíritos se fecham na sua identidade particular, esquecem a sua identidade humana. A crise do mundo impede de ver o mundo. É preciso integrar a identidade humana, terrestre, na nossa educação. É preciso integrar nela a compreensão do outro, já que a incompreensão causa inúmeros sofrimentos. É preciso armar os espíritos jovens para enfrentar as incertezas da vida. É preciso ensinar a pensar de forma complexa, porque as visões redutoras e unilaterais conduzem aos piores erros.»

Edgar Morin

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O pai de Cristina bebia muito, diziam na aldeia que, quando um homem bebe, não sabe o que faz, era legítimo esquecer-se do mal. Nessa tarde, partiu o cabo da vassoura nas pernas da filha. Cristina ficou três dias sem andar. O pai tinha a cabeça caída na mesa da sala, dormia. A mãe estava num estado idêntico, balbuciou quando me viu. Ainda havia vinho na caneca. Alguém me agarrou pelo braço, minha mãe. — Nunca mais venhas a esta casa, nunca mais! — Minha mãe fazia isso quando havia qualquer tragédia na aldeia. A Teresa engravidou com 16 anos, eu falava com ela perto do cemitério, nem sabia, e apareceu minha mãe com os olhos a arder. — Nunca mais te quero a conversar com ela! — Mas continuei a falar, desobedecia muito. Minha mãe desconfiava de mim, acho até que tinha medo de mim. Quando ouvia Liszt, mandava-me cantar ao Senhor. O Senhor que tudo vê! Eu era pior que Teresa e Cristina por princípio.
A casa onde Cristina vivia está abandonada. Sobraram janelas cheias de surro, portas podres, espaços incertos. Cristina foi servir para o Porto e nunca mais a vi. Lembro-me dela a atirar-se para a água, nadava bem e eu andava agarrada à borda do tanque. No Verão, tomávamos banho no tanque grande do Sr. Gouveia, perto das dormideiras e da vacaria. Depois andávamos pelos campos a rolar, a erva fazia cócegas, víamos o monte da Sra. da Orada ao longe e ficávamos deitadas a tarde toda de domingo na encosta, a sentir a brisa suave. Lembro-me dela e imagino-a jovem com duas pernas sem vincos.

elenafortunati

 

«Não amo a minha pátria
O seu fulgor abstracto e inacessível.
Porém (ainda que soe mal) daria a minha vida
Por dez dos seus lugares, certas pessoas,
Portos, bosques de pinheiros, fortalezas,
Uma cidade desfeita, cinzenta, monstruosa,
Várias figuras da sua história, montanhas
e três ou quatro rios.»

José Emilio Pacheco