JaneCampionThePiano

 

Estamos no Outono
e é difícil, acredita, não enlouquecer.
Os rostos das raparigas gravados nos troncos,
raparigas loiras, altas, imaginárias.
As árvores parecem menstruadas
e oscilam suavemente perto do mar.
Nenhum barco à vista, apenas raparigas
que esvoaçam como folhas quase podres.

Os cabelos de Alfonsina molhados,
Alfonsina escrevendo, chamando.
No Outono, acredita, tudo é imperioso
como puxar uma mulher.
Puxá-la distinta,
salgada
do fundo do mar.

Anúncios

O bicho do feijão

 

Em Lisboa escolho feijões,
tiro os furados, os podres, assomam à tona da água.
Boiam bichos pequenos no alguidar.
Feijões que trazem pedras e foram malhados na eira
quando o sol nos queimava.

A máquina de lavar gira. Tiro as mãos da água
e ponho-me a olhar absurdamente a roupa a girar.
Ainda não sou suficientemente triste.
Não penso em boiar como o bicho, inchada
pela vontade de me afogar.

morgenrot

 

«Compreender o temperamento das pessoas com quem tratamos: para conhecer as suas intenções. Se conhecermos as causas, conhecemos as consequências; dessas deduzem-se as intenções. O pessimista é sempre um agoireiro e o maledicente encontra sempre culpas. Sucede-lhe tudo o que há de pior e, como não vêem os bens presentes, anunciam males futuros. O apaixonado vê sempre as coisas de maneira diferente daquilo que são: nele fala a paixão, não a razão. Cada qual fala segundo os seus afectos e o seu humor: estão todos muitos longe da verdade. É preciso saber decifrar as caras e interpretar os sinais da alma. Reconhecer-se-á, assim, o néscio, porque está sempre a rir-se, e o falso, porque nunca o faz; evitar-se-á o curioso, porque é volúvel ou por reparar nos defeitos. Dos de feio rosto esperar-se-á pouco de bom: costumam vingar-se da natureza, porque os favoreceu pouco. A necedade é directamente proporcional à beleza.»

“A Arte da Prudência” de Baltasar Gracián

VER MAL AO PERTO

Foste quase uma doença,
as minhas lágrimas eram cristais.
Cantava-te e corria com flores belas nos braços.
Todas as portas se fechavam e nos teus olhos
havia escadas frias que não levavam a um lugar.
O corpo enegreceu, parou de agonia.

Foste quase uma doença que nunca dorme.
Na minha cabeça a tua lembrança
acompanhou as estações. Só quando nevou
esqueci o teu rosto.
Era tempo de morrer.

caroldass

 

«Querida mãe,
fizeram de nós o capacho do Universo. Haverá no Livro da Vida uma folha especial para os homens que saíram do túmulo rastejando: numa das páginas, ler-se-á a derrota total, a ruína, a submissão – e, na outra, a vitória esmagadora e a consumação.»

George Jackson