justincrowearicsnee

 

«Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez vim esperar-te e não houve chegada.
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça»

“Nobilíssima Visão” de Mário Cesariny

 

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twineviolets

 

«Diante de mim, na parede
em que aparecem os primeiros sinais
do tempo infiltrado há uma prateleira
ainda por arrumar.
Virá alguém um dia e dirá
é uma casa com a beleza
das ruínas e então
serei como qualquer pessoa que morreu
quando eu ainda não era nascido.»

“Calendário” de Daniel Francoy

osmaharvilahtis

 

«Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos
Porque tinha uma mulher no pensamento
Sei que os lavava como se os contasse

Sei que os enxugava com a luz da mulher
Com os seus olhos muito claros voltados para o centro
Do amor, na operação poderosa
Do amor

Sei que cortava os cabelos para procurá-la
Sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava
O cabelo no seu sangue

Na água corrente»

“Homens que são como lugares mal situados” de Daniel Faria

vincentdesiderio

 

toda a vida aprendemos a guerra
esperamos por ela sem ela mudar
enquanto mudamos sem disparar uma bala

quando já não servimos para nada
a guerra acontece

então lembramo-nos das árvores
do gotejar perturbante da água

a luz cega
e o coração deixa de estalar

“doismilecoiso.blogspot.pt” de João Bentes

alexanderkuzmin

 

«CREONTE: Levá-la-ei para onde o caminho estiver deserto de pegadas humanas, e ocultá-la-ei viva numa caverna  escavada na rocha, dando-lhe de alimento só o necessário para fugir ao sacrilégio, a fim de que a cidade evite qualquer contaminação. E aí, se ela pedir ao Hades – único dos deuses que venera -, talvez lhe seja concedido não morrer, ou ficará finalmente a saber, embora tarde, que prestar culto a esse deus é trabalho escusado.»

“Antígona” de Sófocles