ainsisoientils

 

«A igreja é um negócio e os ricos
são os homens de negócios.
Quando tocam os sinos, os
pobres entram e amontoam-se e quando um pobre morre, tem uma
cruz
de madeira, e apressam-se na cerimónia.

Mas quando um rico morre,
retiram o Sacramento
e uma Cruz dourada e vão doucement, doucement
para o cemitério.
E os pobres adoram
e acham fantástico.»

Robert Creeley

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francescoalbano

 

«Não entender» era tão vasto que ultrapassava qualquer entender — entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
[…] No entanto às vezes adivinhava. Eram manchas cósmicas que substituíam entender.

Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

O homem magro, pernas altas, saco azul na mão, parecia raquítico. Saiu do metro, subiu as escadas, para onde seguiria? Os seus olhos estavam esquecidos.

O calor de Lisboa. O velho anda devagar, não o ultrapasso, vejo-o arrastar a perna esquerda, os outros passam por ele, andam vigorosamente, um jovem lesto sorri da dificuldade, atrapalha-lhe o passo, mas contorna-o e passa. Mais um. Sento-me no banco e observo o modo vagaroso com que anda, também sou velha. Na minha testa, acumula-se algum suor.

A cidade cambaleia. O centro comercial assemelha-se a um galinheiro. O velho, o jovem, a criança, os pais com bebés, o tabuleiro com comida, as lojas abertas, o barulho das caixas registadoras. Compra uma perna ao velho, compra. Compra uns olhos ao negro magro do metro. Compra mais cabeça, compra. Não há limitações à venda nem promoções para as incapacidades. Oh, nunca vi um manequim de muletas!

tommasoausili

 

«- Vamos matar Santiago Nasar – disse.
Tinham tão bem fundada a sua reputação de boa gente, que ninguém fez caso deles. “Pensámos que eram coisas de bêbados”, declararam vários carniceiros, exactamente como Victoria Guzmán e tantas outras pessoas que os viram depois. Eu haveria de perguntar um dia aos carniceiros se o ofício de magarefe revelava uma alma predisposta a matar um ser humano. Protestaram: “Quem mata uma rês não se atreve a olhá-la nos olhos”. Um deles disse-me que não conseguia comer carne de um animal que degolava. Outro disse-me que não seria capaz de abater uma vaca que tivesse conhecido antes, e muito menos se tivesse bebido do seu leite. Lembrei-lhes que os irmãos Vicário abatiam os porcos que eles próprios criavam, e que lhes eram tão familiares que os distinguiam pelos nomes. “É verdade”, replicou um, “mas repare bem que não lhes punham nomes de pessoas, mas de flores”. Faustino Santos foi o único que percebeu uma chispa de verdade na ameaça de Pablo Vicário, e perguntou-lhe de brincadeira por que tinham eles de matar Santiago Nasar, se havia tantos ricos que mereciam morrer primeiro.
– Santiago Nasar sabe porquê – respondeu-lhe Pedro Vicário.»

“Crónica de uma morte anunciada” de Gabriel García Márquez

jenineshereos

 

O poema deve ser como uma árvore.
Quantos mais anos tiver, mais sombra dará,
mais belo se tornará.
Agarra a si o musgo,
tem tronco magnânimo e raízes fora da terra.
Dá frutos e engole-os.
Os homens pousam nele os olhos por um segundo.
Cai, corta-se, ignora-se,
prega-se nele algo e foge-se.
Uma parte apodrece e solta-se,
outra queima-se e faz cinza.
Deita seiva e fere as mãos
quando nele se enterra o machado.
Sim, o poema deve ser como a árvore,
com ela se fabrica o caixão.
Já muitos adormeceram debaixo de frondosos
ramos e viram raios de sol na carne.
Já muitos fizeram cuzes e Deus
nunca falou. Fechou a boca.
No poema, Deus não existe, não canta
como estas altas folhas.

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«Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.»

Jorge Luis Borges
(a verdade está na caixa de comentários)