golucho

 

«Em verdade, meus amigos, eu caminho por entre os homens como por entre fragmentos e membros soltos de seres humanos!
O que é terrível, a meus olhos, é que eu encontro o homem despedaçado e espalhado, como que através de um campo de batalha e de carnificina.
E se o meu olhar fugir do agora para o outrora, encontra sempre o mesmo: fragmentos, membros e acasos atrozes… mas não seres humanos!
O agora e o outrora deste mundo… Ah! Meus amigos, isso é para mim o que há de mais insuportável! E eu não seria capaz de viver, se não fosse também um vidente daquilo que há-de vir. Um vidente, um querente, um criador, um futuro, por si próprio, e uma ponte para o futuro… e, infelizmente, também de certo modo um aleijado junto desta ponte: tudo isto é Zaratustra.
E também vós perguntates muitas vezes a vós próprios: ”Quem é para nós Zaratustra? Que há-de ele significar para nós?” E, tal como eu próprio, destes como resposta as vossas perguntas.
Ele é alguém que promete? Ou alguém que cumpre o prometido? Alguém que conquista? Ou alguém que herda? Um outono? Ou uma charrua? Um médico? Ou um doente curado?
É um poeta ou um homem que fala verdade? Um libertador ou um domador? Um bom ou um mau? Caminho por entre os homens como por entre os fragmentos do futuro: daquele futuro: daquele futuro que eu vejo.
E todo o meu interesse consiste em juntar e reunir todo aquilo que é fragmento, enigma e acaso atroz.»

“Assim Falava Zaratustra” de Friedrich Nietzsche

brendonburton

 

«Os objectos inanimados estão sempre em ordem e nós infelizmente não temos nada a censurar-lhes. Nunca vi uma poltrona trocar de pé ou uma cama erguer-se nas pernas traseiras. E as mesas, mesmo quando estão fatigadas, não se põem de joelhos. Suspeito que os objectos se comportam assim por razões pedagógicas: para nos censurarem constantemente pela nossa instabilidade.»

“Escolhido Pelas Estrelas” de Zbigniew Herbert

Deixa morrer ________ é preciso que as formas se degradem.

Maria Gabriela Llansol

O corpo suspenso, em suspenso, como o meu. O afundamento, o tempo o ditará. Ou mão soberana. Será no momento em que o corpo paira no tempo, a laranja, sabe que regrediu até ao ponto em que a leveza, que lhe permite manter-se à tona em toda a luz de ouro da sua cor, passou o testemunho à pesadez. Ninguém lhe dá nem tem de dar a mão. Ela própria se entrega ao elemento líquido, numa margem discreta do rio, sem testemunhas.

Como um Hiato na Respiração, João Barrento, Averno, 2015.