Há sempre, em qualquer parte,
um menino inquieto
que canta, corre e dança
como um pequeno insecto.

Há sempre, em qualquer parte,
um jovem errante,
que recolhe o sonho
como um diamante.

Há sempre, em qualquer parte,
um homem só
como um moinho abandonado,
com sua mó.

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Têmporas

Claro que a vida não é isto, ler livros, o Bartleby morto, claro que não.
É por isso que pego no ferro e passo a roupinha toda. Aliás, deviam ter-me ensinado mais utilidades e formas para ocupar o tempo. Substituí os comprimidos por Amor, mas um Amor como poucos têm, aumenta na distância, enquanto trabalha o amado e eu fico eficiente, burocrática, dona de casa, febril. Não, não escrevo poemas, muito menos diários. Fico muito excitada quando me tocas, e absorta, durmo depois do Amor todo e não há um único poema capaz de me acordar. Mas acontece que o meu sexo vai parar. “Preferia não o fazer”, entendes? Sou capaz de fazer qualquer homem muito feliz, menos eu mesma. A minha própria garganta asfixia e arranho o braço que foi picado por um insecto. A cama está quente ou é o teu sexo? O teu sexo que observa o meu estático. Dou-me toda, doo-me toda, deito-me toda, endoideço inteira. “E tu vens procurar-me junto às sebes. / Oiço o soluçar dos teus passos / E os meus olhos são pesadas gotas escuras.” Sou uma árvore carregada de frutos, deixo-os apodrecer, não os suporto em mim. Quero a poesia. Sou independente do estabelecido para sempre.
Andas nu pela casa. Observo o teu corpo à espera.

Este Verão, vamos ver petúnias e viajar.

ivankap

 

«Por que haviam de ter pena de mim, dizes tu? Não, não há razão para se ter pena de mim! Mereço que me crucifiquem, que me preguem na cruz, e não que tenham pena! Sim, crucifica, juiz, crucifica-o e, depois de crucificado, tem pena dele! Então, eu próprio comparecerei perante ti para o suplício da cruz, porque não aspiro à alegria mas à dor e às lágrimas!… Achas tu, taberneiro, que esta tua garrafa me foi doce? O que eu procurei foi a dor, sim, a dor, no fundo da tua garrafa, a dor e as lágrimas, e tive-as e saboreei-as; e terá pena de nós aquele que teve pena de todos que a todos e a tudo compreendeu, porque ele é uno, ele é o juiz. Nesse dia ele virá e perguntará: “Onde está a filha que pela madrasta má e tísica se entregou, pelos filhos alheios e menores? Onde está a filha que teve piedade do seu pai terreno, bêbado depravado, sem se horrorizar com a sua figura animal?” E dirá: “Vem! Já te perdoei uma vez… Perdoei-te uma vez…. E agora os teus muitos pecados serão perdoados porque muito amaste…” E perdoará à minha Sónia, perdoará, sei que perdoará… Ainda há pouco, quando fui a casa dela, senti-o no coração! Julgará a todos e a todos perdoará, bons e maus, sábios e humildes… E quando acabar de julgar a todos, clamará também para nós: “Vinde – dirá —, vinde também vós! Vinde, bebedolas, vinde, fraquinhos, vinde, desavergonhados!” E sairemos todos, sem nos acanharmos, e compareceremos perante ele. E ele dirá: “sois uns porcos! Tendes a imagem da besta e o selo dela; mas vinde também!” E dirão os sábios, e dirão os sensatos, e dirão os justos: “Senhor!, porque os aceitas?” E ele dirá: “Aceito-os, ó sábios, aceito-os, ó sensatos, porque nenhum deles se considerou digno disso…” E estender-nos-á as suas mãos e apegar-nos-​emos a elas… e choraremos… e compreenderemos tudo! Compreenderemos então tudo!… e todos compreenderão… e Katerina Ivánovna… também compreenderá… Senhor, venha a nós o vosso reino!»

“Crime e Castigo” de Fiódor Dostoiévski

teresaqueiros

 

A minha ferida não aumentou. Olha bem para ela.
Está parada, passou-lhe tempo por cima e pó. Ando com ela, em certas alturas, aperta-me muito, sinto vontade de chorar. Mas tenho sempre o cuidado de refreá-la, de a limpar, de a deixar à mesma temperatura para não queimar.
Tapo-a, mas gosto de a sentir debaixo da camisa, silenciosa e atenta como um bom predador.

jessicadalva

 

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

“Livro de Mágoas” de Florbela Espanca

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No Verão,
as formigas andam em cima das árvores
sem cair.
A terra seca abre-se
como promessa de engolir a nossa morte.

Depois do Verão,
nascem crianças até ao Inverno
e arrancam dos seios das mães
a seiva anterior.

Antes do Verão,
as amoras ainda não sabem
que o sol está a fingir
e por isso amadurecem.