44_008

 

«É hora, companheiros
até aqui estivemos ensaiando
foi tudo muito bom e valeu
mas agora começa o verdadeiro espectáculo
todos juntos
espalmemos as mãos com leveza e com graça
vamos alçar os pés, brandir os braços e girar
e descer a porrada

porrada
eu quero ver punhos fechados esmagando queixos
quero ver o tapa no ouvido
na boca do estômago a bela cotovelada
isso, companheiros
até agora combatemos na sombra
por baixo do pano íamos dando rasteiras anódinas
agora é no centro do palco
na linha divisória do gramado vamos linchar o juiz e a mãe do juiz
e o time adversário e cada um dos nossos próprios parceiros

porrada
cubramo-nos finalmente de porrada
uns aos outros vamos nos esbofetear e baixar o cacete
e nos morder e nos lanhar e nos cravar as unhas
todos o merecemos
acaso não temos sido vis, irremediavelmente estúpidos
bestas mesquinhos sórdidos miseráveis
todos não estivemos ocupados unicamente em passar a perna
ela em mim, eu em você, eles em todos nós
todos caídos no chão, passemos portanto à etapa seguinte
ao chute na boca, ao chute no saco
ao chute no pé do ouvido, ao chute nos olhos
todos com empenho e garra e determinação
vamos fazer o pau cantar de puro gozo
e que ninguém deixe a arena até que todos estejam esfolados
até o menos ridículo
o menos reles
o mais insignificante de nós
todos com escoriações, todos cobertos de hematomas
esse que está se levantando, atenção
metam-lhe a mão na cara
todos os ossos quebrados todos os dentes partidos
todos mutilados, mancos, coxos
todos com um olho a menos, com uma orelha faltando
com a língua decepada a pender de um canto da boca
e a segurar com as mãos o massacrado estômago
os triturados colhões
e a não conter ânsias de vómito e cascatas de sangue
!quiero ver sangre, sangre, sangre!
fazendo poças e se esparramando
suavemente no asfalto da cidade.»

“Poemas durante a chuva” de Jayme Kopke

Anúncios

1000017_237568006394708_757657622_n

 

Recuerdo hoy sus ojos y tengo miedo. “Lo bello no es sino el primer escalón de lo terrible”… Qué passará cuando recuerde su cara, quando su cara se abrace a mi memoria, quando sua cara sea mi memoria. (…)

“Ámame y déjame”, me dicen. Y yo lo hago. Yo cumplo lo que se me pide. Soy acessible, bondadosa y servicial como un animal herido, dulcemente doméstico, merodeando en una casa que pronto abandonará.

Alejandra Pizarnik, Diarios.

21267_809955789054349_3665289596321524810_n

 

A mão começou a descolar,
Deixou-a cair, ali, na berma da estrada.
Pensou: — Se me caem os olhos,
Deixo de ver a lua.
Tudo cai com o tempo,
conservamos o Outono e a solidão
no interior, assim como o medo.
No espelho, via o braço sem mão
e a jaqueta com dois bolsos.

florian imgrund

 

«és só um homem esquecido pela terra,
os que te cercam não te reconhecem,
nada sabem das tuas mãos, dos teus olhos,
da coisa mais ínfima que seja tua.
Tu vês os que te cercam, mas eles
rodeiam-te da tua ausência
com a perseverança de sobreviventes

do mundo aos lábios: a separação
do olhar de Deus»

“Ofício de Vésperas” de Rui Nunes

A.-L.-Crego_Street_Art_002

 

«Se o homem que dança torto à beira dos abismos cai, e se os dois braços não são suficientes, por vezes surge (mais na ficção do que no outro lado mas surge) um braço, um terceiro braço. É ele que salva. Eis uma forma metafórica de falar das ligações afectivas que salvam, desse terceiro braço – o braço do amigo.
Digamos que o tamanho do corpo depende da quantidade de ligações – uma interpretação da frase de Novalis: a solidão não tem sempre a quantidade um. Existe a solidão magra, a solidão bem constituída e, ainda, a solidão obesa (excesso de ligações, ligações dispensáveis).»

“Atlas do corpo e da imaginação” de Gonçalo M. Tavares

ozzie49

 

«adunámos corpo a corpo multiplicámos fornicámos
até ser virgem a porcaria

deitámo-nos fora com um murro sensualmente
e abrimos as persianas sobre isto

muitos paraísos seguidos de paraísos e muita merda
a cobrir-nos por cima»

“Groto Sato” de Raquel Nobre Guerra