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Vi a mulher a correr na noite.

A mulher que se apaixonou pelo morto.

Cantava no cemitério,

enquanto os vivos soterravam o coração.

Ela via luas e erguia os braços,

e depois cantava para arrancar do sono

o amor que, enterrado,

não podia escrever.

A terra entrava-lhe pela boca.

Pintava flores de plástico,

alimentava vermes,

corria, batendo nas portas.

Gritava sozinha o esquecimento da morte.

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tsilvaribeiro

 

«Devo passar
pelo umbral escuro.
Uma sala.
O documento em branco resplandece.
Como as muitas sombras que se movem
todos querem assiná-lo.

Até que a luz me trespasse
e dobre o tempo.»

Tomas Tranströmer

Luzinterruptus

 

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.

“Do Mundo” de H. H.

maurice08

 

«(CONHEÇO-TE, tu és a profundamente inclinada,
eu, o trespassado, estou em tua sujeição.
Onde flameja uma palavra que por nós testemunhara?
Tu – toda, toda real. Eu – todo ilusão.)»

“Não Sabemos Mesmo o que Importa” de Paul Celan

larajade

 

«Inclinado por sobre aquele portão que dava para uma série de prados onde as cores ondulavam, este ser não me respondeu. Não me ofereceu oposição. Não tentou construir qualquer frase. Nem sequer cerrou os punhos. Esperei. Escutei. Nada surgiu, nada. Possuído pela sensação de ter sido abandonado, soltei um grito. Agora, nada mais existe. Não há barbatana [pensamento] que quebre a fixidez deste mar imenso. A vida destruiu-me. As palavras que digo já não têm qualquer eco. De facto, trata-se de uma morte bem mais verdadeira que a dos amigos, que a da juventude. Sou a figura enfaixada de barbearia, e ocupo pouquíssimo espaço.»

“As ondas” de Virgínia Woolf