Ricardo Martinez

 

«porque só no erro, só através do erro,
no qual se mantém sem poder fugir,
se torna o homem no investigador
que, é,
o homem que investiga:
porque o homem precisa do conhecimento da inutilidade.
tem de aceitar o seu medo, o medo de cada erro,
reconhecendo-o, provando-o até ao fim;
tem de ter consciência do pavor,
não por auto-flagelação, mas sim
porque só nessa consciência que reconhece
se ultrapassa o pavor,
porque só então é possível
entrar pela porta córnea do pavor
até atingir a existência»

“A Morte de Virgílio” de Hermann Broch

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Cassandra

 

«Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre o quê; não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços moles de lápis rombo – que não tenho sentimentalidade para aparar -, o papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E dou-me por satisfeito.»

“Livro do Desassossego” de Bernardo Soares

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«De facto, o destino dos humanos e o dos animais é o mesmo; tanto morrem uns como outros; o sopro da vida é o mesmo para todos. O homem não tem melhor sorte do que o animal: é tudo uma ilusão! Todos vão para o mesmo lugar; todos foram feitos do pó da terra e para lá hão-de voltar. Quem pode garantir que o espírito dos humanos sobe para o alto e o dos animais vai para debaixo da terra?»

Eclesiastes, 3:19-21

 

coyoteroadkill

oncemilvírgenes

 

«San Giorgio é uma galeria de bons quadros, todos pinturas de altar que, não tendo todas o mesmo valor, são notáveis no seu conjunto. Mas os pobres dos artistas! O que eles não tinham de pintar, e para quem! Uma representação da chuva de maná, talvez com trinta pés de comprido e vinte de altura! E do outro lado o milagre dos pães! Que matéria havia aí para pintar? Pessoas esfomeadas que se lançam sobre migalhas, e inúmeras outras a quem os pães são apresentados. Os artistas passavam torturas para conseguirem tornar significativas tais insignificâncias. E no entanto, estimulado pela necessidade, o génio produziu belas coisas. Um artista a quem coube representar Santa Ursula e as onze mil virgens, resolveu o problema com grande sensatez. A santa está em primeiro plano, como se tivesse acabado de conquistar o país. Tem um aspecto muito nobre, de virgem amazona, representada sem encanto; da distância que tudo reduz vêem-se, pelo contrário, as suas legiões a sair dos barcos, aproximando-se em procissão.»

“Viagem a Itália” de J. W. Goethe

Sofia Ajram

 

«Mas, nestes tempos, far-se-á o elogio
dos que, para escrever, se sentaram no chão nu,
dos que se sentaram entre as pessoas humildes,
dos que se sentaram entre os combatentes.

Dos que contaram os infortúnios dos pequenos deste mundo,
dos que contaram os grandes feitos destes combatentes,
com arte, na nobre língua
outrora reservada
à glorificação dos reis.»

Bertold Brecht

 

Sofia Ajram2