Monstros e homens lado a lado,
Não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
Quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.

*

Ao rosto vulgar dos dias,
A vida cada vez mais corrente.
As imagens regressam já experimentadas,
Quotidianas, razoáveis, surpreendentes.

*

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.

“A Única Real Tradição Viva” de Alexandre O’Neill

A noite está na concha da mão. (E também no brilho dos olhos.)

Limites do universo: cada um é germe de infinito.

Ao respirar fazemos sombra.

(Em menina, transtornavam-na as manhãs sem mãos, no meio da roda, com a sua imperícia de aleijadas.

Da terra, lembrar-se-á do riso do arco esbaforido, oscilando no caminho, e do suspiro das cortinas poeirentas que erguia até à aurora?)

A pouco e pouco as paredes afrouxaram o seu abraço, porque não há amor eterno entre as pedras. Uma a uma redescobriram, nas ruínas, o anonimato do seu destino.

 

Edmond Jabès, A Obscura Palavra do Deserto, Selecção e tradução de Pedro Tamen, Cotovia.

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Descia para o Jardim da Estrela. Ia levantando as tampas dos caixotes do lixo, passavam carros com bandeiras encarnadas, sons de buzinas e gritos. Aquele homem levava a fome negra e com as mãos recolhia alguma vida. Acompanhei-o até ao Rato e verifiquei que tinha o olho esquerdo fechado, parecia cosido. Era como o olho da avó Maria Augusta que admirava castanheiros. Certo dia, no campo, mirava o castanheiro gigante e um ouriço caiu-lhe no olho esquerdo. Ficou cega. Na fotografia da campa ela tem o olho fechado por baixo dos óculos. O homem fixou a minha barriga com o olho direito. Levou a mão à boca e trincou algo. Virou costas em direcção à multidão. Todos fartos de vitória e ele com restos no saco de plástico. Ainda olhou para trás, como se pudesse regressar à casa sem porta.