É madrugada, acordo e a rua ainda está em silêncio. Sonhei que estava em Porto D’ Olho, nevava, afundava-me no branco.

Logo experimento outra escola, estou cansada de tantas salas: aqui estou, a minha boca começa. Ainda não vejo o Outono, a ponte faz barulho quando passo de carro, o rio é imenso, preto e calmo. Algum dia nevará em Lisboa?

 

joelrobinson

 

«Nunca olhes os bordos de um texto. Tens que começar numa palavra. Numa palavra qualquer se conta. Mas, no ponto-voraz, surgem fugazes as imagens. Também lhes chamo figuras. Não ligues excessivamente ao sentido. A maior parte das vezes, é impostura da língua.»

“Um Beijo Dado Mais Tarde” de Maria Gabriela Llansol

joelrea

 

«Como é que (pensava eu) os antigos percebiam todo o absurdo da sua literatura e da sua poesia? A forma imensa e magnificente das suas palavras artísticas era esbanjada de forma completamente vã. Uma coisa ridícula: cada um escrevia o que lhe passava pela cabeça. Tão ridículo e absurdo como os antigos permitirem que o mar batesse inutilmente durante vinte e quatro horas contra a praia, deixarem que os milhões de quilogrâmetros contidos nas vagas não tivessem mais utilidade que a de embalarem as emoções dos namorados. Do enamorado sussurro das ondas, nós extraímos electricidade; dessa fera brava que se desfaz em espuma fizemos um animal doméstico e, pelo mesmo método, domesticamos e submetemos o elemento outrora bárbaro da poesia. Doravante, a poesia não é já o imperdoável trinado do rouxinol; a poesia é um serviço estatal, a poesia é utilidade.»

“Nós” de Evgueni Zamiatine