POEMA

Para o banquete com talheres de prata
chegam os poetas com as musas ao colo
elas todas nuas
eles de gravata

servem-se as lagostas
ao som do piano
e depois a carne
carne de licorne desce de aeroplano

tudo com muitos vinhos
de vários sabores
por copos infindos
como são os amores

e após o banquete
entre aves canoras
os poetas e as musas
saem para o espaço
em camas voadoras

António José Forte, Uma Faca nos Dentes, Antígona.

 

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As crianças, na escola, falam alto, arrastam mochilas pelo chão. Percorro os corredores, vejo as salas de aula, volto para casa. É como entrar e sair de Setembro.

As árvores são o meu maior fascínio, nunca se cansam do mesmo lugar. E nós insatisfeitos e inquietos. Muitas vezes, as raízes rompem o alcatrão e ficam totalmente expostas. A força das árvores é inigualável. Um verme, um homem jamais conseguiria tal feito. Na cidade, as árvores são o maior refúgio que encontro. Os castanheiros e pinheiros perto do pavilhão Carlos Lopes fizeram o meu dia crescer silencioso, a noite não foi tão densa e triste.

 

«Os livros de Naso estavam dispostos, nas montras das livrarias, em pirâmides e em mosaicos encimados por cartazes com o seu retrato, e até as prostitutas, nos bordéis da capital, iam buscar os pseudónimos às suas poesias eróticas impressas em grandes tiragens. Mesmo as cartas de amor das pessoas de bem não passavam, muitas vezes, de cópias das suas maravilhosas elegias.

 

 

Mas o nome de Naso acabava por vir também à baila quando se falava de escândalos, de festas ao ar livre, banquetes, dos luxos da moda ou das aventuras do poder… Não havia dúvida, Naso era famoso. Mas um poeta famoso, afinal, o que era? A verdade é que Naso só precisava de se ir sentar com os trabalhadores braçais numa taberna dos arredores ou, com os negociadores de gado e os olivicultores, debaixo dos castanheiros duma praça de aldeia, a duas horas a pé de Roma, e já ninguém conhecia o seu nome nem tinha nunca ouvido falar dele.

 

 

Que era, pois, o pequeno público elegante da poesia comparado com as enormes massas humanas que, no circo, nos estádios e nas tribunas dos hipódromos, enriqueciam à força de gritar? A celebridade de Naso só valia onde as letras valiam alguma coisa, e ficava anulada assim que um simples corredor de longa distância se aproximava da vitória, arfando sobre uma pista de cinza, ou um acrobata transpunha o abismo de uma rua, caminhando sobre uma corda bamba.

 

 

Simplesmente comparado com o roçagar das vestes de cem mil súbditos que se levantam dos seus lugares nas arenas quando o Imperador aparecia sob o seu baldaquim, o aplauso num teatro era já um barulho modesto, ridículo.»

“O Último Mundo” de Christoph Ransmayr